Certas culturas, como a cerejeira, o pessegueiro, a macieira ou o mirtilo precisam de passar frio durante o inverno para darem uma boa floração na primavera. Quando o acumulado de horas de frio é inferior à necessidade das culturas, a rebentação acontece de forma irregular, a floração atrasa e a produção ressente-se.
Essa contagem começa agora, no início de novembro. Acompanhar esse número durante o inverno, e de ano para ano, diz muito sobre o pomar e sobre as variedades que lá estão plantadas.
O que são horas de frio
No outono, a árvore entra em dormência. Para sair desse estado de forma normal, na primavera, não chega que as temperaturas subam, precisam de acumular uma certa quantidade de frio durante o inverno.
É essa quantidade que se mede em horas de frio, e varia bastante de variedade para variedade. Na cerejeira, há variedades que ficam satisfeitas com 400 a 500 horas e outras que precisam de mais de 1000. Quando o frio do inverno não supre essa necessidade, as consequências só se notam meses depois, já na primavera ou na colheita.
Como se contam
Não há uma única forma de contar o frio. Os modelos mais usados são:
- Horas abaixo de 7 °C. A mais antiga, e ainda muito usada, é contar as horas com temperatura abaixo de 7 °C como uma hora de frio. É fácil de calcular, mas trata da mesma forma uma hora a 6 °C e uma hora a -5 °C, quando a temperaturas muito baixas a árvore já não está a acumular frio útil.
- Horas entre 0 e 7,2 °C. Uma variante que só conta as horas dentro desse intervalo. Já exclui as temperaturas negativas e o frio muito intenso que pouco ou nada ajuda a árvore a sair da dormência.
- Unidades de frio (modelo de Utah) e porções de frio (modelo dinâmico). Dão pesos diferentes a cada temperatura. As temperaturas à volta dos 6 a 7 °C contam mais, as muito baixas contam pouco ou nada. São mais exigentes de calcular.
Na prática, o mais importante é ser coerente, ou seja, usar sempre o mesmo modelo e comparar com a necessidade da variedade medida nesse mesmo modelo.
O que acontece quando falta frio
Um inverno com pouco frio não deixa a árvore sem flor. O que acontece é que ela sai da dormência de forma desigual. Os sinais aparecem na primavera:
- Abrolhamento irregular. Alguns gomos rebentam, outros ficam parados. A árvore fica com zonas despidas.
- Floração longa e desfasada. As flores abrem ao longo de mais tempo, o que complica a polinização, sobretudo em variedades que dependem de outra para polinizar.
- Desfasamento com polinizadores. A floração deixa de coincidir com a altura em que abelhas e outros polinizadores estão mais ativos, o que prejudica a floração e frutificação.
- Queda de gomos florais e menos vingamento.
- Maturação pouco uniforme. Se a floração se arrasta no tempo, a colheita também, e são precisas mais passagens, aumentando os custos da operação.
Um inverno fraco pode ser compensado, em parte, com produtos que ajudam a quebrar a dormência. Mas quando os invernos fracos se repetem, o problema deixa de ser de uma campanha e passa a ser da variedade que está plantada.
Como se lê a curva de frio acumulado
As horas de frio leem-se como um total que vai crescendo ao longo do inverno. O gráfico abaixo é um exemplo, com valores fictícios, de três invernos no mesmo pomar.

- Veja a inclinação. Quanto mais inclinada a curva, mais depressa o frio se está a acumular.
- Compare com a necessidade da variedade. As linhas horizontais tracejadas marcam o frio de que cada variedade precisa. A curva tem de as cruzar antes do abrolhamento.
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O momento em que a curva passa a linha. Em cada ano o momento em que as linhas se cruzam pode calhar em alturas diferentes.
- Compare campanhas. Uma curva isolada diz como correu um inverno. Várias, lado a lado, percebe-se se os invernos estão a ser menos frios e se as variedades estão a ficar no limite.
O caso da Cerejorange
Na Cerejorange, no Fundão, o Filipe Costa produz cereja e pêssego. Os sensores instalados na exploração acompanham, entre outros fatores, a humidade e a temperatura do ar, e servem também para calcular as horas de frio de cada inverno. É informação que, antes, não tinha, e que hoje considera "crucial para nos ajudar a tomar decisões".
Com vários invernos registados, o que lhe interessa já não é só o número de cada ano, é a tendência. E essa tendência tem sido clara, um "decréscimo paulatino das horas de frio" nos últimos anos. "Não avaliando, andamos completamente às escuras e não conseguimos fazer a planificação", explica.
A cerejeira é exigente em frio, e algumas variedades têm necessidades médias ou altas para o que o Fundão tem acumulado. É por isso que Filipe usa estes dados sobretudo a médio prazo, quando tem de decidir o futuro de uma parcela. Os dados ajudam a decidir três coisas:
- Quando renovar. "Ajuda-nos a planificar melhor quando temos de renovar partes do pomar", seja porque as árvores já têm idade, seja porque a variedade chegou ao limite do seu potencial produtivo.
- Que variedade plantar. Na renovação, a escolha passa a ter em conta o frio que a parcela realmente acumula.
- Se a parcela continua a ser de cerejeiras. Nos casos mais extremos, se uma zona deixar de ter condições, a opção pode ser mudar de espécie, para pessegueiro, nectarina ou outra.
O Filipe não vê nisto o fim da cereja no Fundão. Lembra que o tema é "transversal em todas as zonas de produção de cereja" e que os obtentores de variedades estão cada vez mais atentos à necessidade de frio. Mas para escolher bem entre as novas variedades, é preciso saber quanto frio a própria exploração tem.
Onde entra o Wisecrop
Na App Clima do Wisecrop, as horas de frio e os graus-dia conseguem ser calculados a partir dos dados da estação meteorológica da exploração. Os valores podem ser comparados entre campanhas, para ver se o acumulado de frio está a aumentar, a diminuir ou a variar de ano para ano.
Os gráficos de horas de frio são cruzados com as observações de estados fenológicos registadas no campo. Assim, para além de saber quanto frio entrou, vê-se como cada parcela respondeu. É esta ligação que dá sentido aos números. Ao fim de algumas campanhas, percebe-se com que valores de frio cada variedade responde naquela exploração, e torna-se mais fácil antecipar a floração, decidir se vale a pena intervir para ajudar a quebrar a dormência e preparar a campanha com tempo.
Como os dados vêm do próprio pomar, refletem o microclima da exploração e não uma média regional. E, ano após ano, vão formando um histórico que permite comparar o inverno que está a decorrer com os anteriores, logo a partir de novembro.