Nas margens do Rio Ovelha, em Marco de Canaveses, cinco hectares de mirtilos crescem com uma exigência que qualquer produtor conhece bem: a água tem de chegar na quantidade certa, na hora certa.
Durante anos, essa decisão dependia essencialmente da experiência de quem estava no campo. Hoje, depende de dados.
A Ovelha Azul nasceu em 2012 com um objetivo claro: manter viva uma herança familiar e construir a partir dela um projeto sustentável. Com cinco hectares dedicados ao mirtilo, a margem para erro é reduzida. Cada decisão tem impacto e poucas são tão críticas como a rega.
Numa cultura sensível ao equilíbrio hídrico, regar a mais ou a menos tem consequências diretas na produtividade e na qualidade. Sem dados concretos, essa decisão era sempre uma aproximação.
A Alexandra e o Carlos, responsáveis pela gestão diária da exploração, sabiam que a gestão da água podia ser mais precisa. Não havia registos contínuos que permitissem comparar campanhas, perceber o impacto de anos mais secos ou húmidos, ou ajustar a rega às necessidades reais da cultura ao longo do ciclo.
A experiência orientava, mas não antecipava. E no caso da água, antecipar faz toda a diferença.
Com a certificação SPRING já integrada na exploração, essa exigência tornou-se ainda mais clara. Garantir eficiência hídrica deixou de ser apenas uma boa prática e passou a exigir evidência.
A mudança começou com a instalação de sondas de humidade e temperatura do solo ligadas ao Wisecrop e com a integração do programador de rega, para um controlo detalhado de cada setor.
O impacto foi imediato na forma de tomar decisões. Em vez de avaliar o solo por intuição ou leitura visual, a Alexandra passou a ter alertas automáticos, um histórico detalhado das regas realizadas e a possibilidade de ligar, desligar ou ajustar programas através do telemóvel, sem se deslocar ao campo.
"Estes dispositivos ajudam imenso. Nós temos objetivos para poupar mais água e só com estes dispositivos é que isso é possível." Alexandra Ribeiro, Produtora Agrícola
Poupar água numa exploração como esta raramente é uma decisão dramática. Não se trata de cortar volumes de forma abrupta, o que teria consequências imediatas na planta. Trata-se de perceber que um setor que consome 50 metros cúbicos pode passar a consumir 48 sem qualquer prejuízo, e de repetir esse acerto, setor a setor, ao longo de toda a campanha.
É esse tipo de leitura que não é possível fazer sem dados do solo. A diferença entre 50 e 48 não se vê a olho nu, mas nota-se no final do ano.
"Só com estes dispositivos é que nós conseguimos gerir isto. De outra forma era impossível." Alexandra Ribeiro, Produtora Agrícola
Nesta exploração, o ajuste traduziu-se numa redução de 4% no consumo de água. Um número que, à primeira vista, pode parecer modesto, mas que representa exatamente isso: um acerto real e mensurável, obtido sem alterar a estratégia de rega, apenas afinando-a com informação que antes não existia.
Num contexto de maior variabilidade climática e de pressão crescente sobre o uso da água, a capacidade de ajustar com precisão deixou de ser uma vantagem acessória para passar a ser um fator de competitividade. Para explorações certificadas, é também uma questão prática: sem registo contínuo, não há como demonstrar o que se fez.
Na Ovelha Azul, a rega deixou de ser uma decisão baseada no que parecia certo. Passou a ser uma decisão baseada no que o solo indica.
E essa mudança, num projeto pensado a longo prazo, faz toda a diferença: produzir com qualidade, gerir com consciência e crescer de forma sustentável. A exploração está neste momento a ampliar a área de produção e a instalar mais dispositivos no terreno.