Wisecrop

Como a Maio Verde produz mirtilos de qualidade e usa menos 32% de água

Written by Filipa Carvalho | Jul 3, 2026 2:19:29 PM

Poucas culturas exigem tanta precisão como o mirtilo. As raízes são sensíveis, o equilíbrio da nutrição é ténue e a quantidade de água certa num dia pode ser água a mais no dia seguinte. Gerir tudo isto a olho é possível, mas costuma ficar caro: um pequeno desacerto, repetido ao longo de uma campanha, acaba sempre por aparecer no fruto.

É com essa exigência que a Maio Verde, produtora de pequenos frutos em Portugal, convive todos os dias. Gerida pelos irmãos Francisco e Maria João Raro, produz mirtilo em 8,2 hectares distribuídos por três quintas.

 Uma cultura que não perdoa

Antes do Wisecrop, boa parte da gestão diária assentava em suposições. A rega era o exemplo mais claro. Com gota-a-gota espalhado por oito hectares, não havia forma de confirmar se todas as zonas recebiam água de forma uniforme. As decisões seguiam horas de rega programadas, ou seja, a teoria, sem que ninguém soubesse o que estava realmente a acontecer no solo.

A nutrição levantava um problema ainda mais delicado. O mirtilo é extremamente sensível à quantidade de nutrientes: adubo a mais queima as raízes, adubo a menos compromete a colheita. Sem medir a condutividade elétrica do solo, era impossível ter a certeza de que se estava no ponto certo, e no mirtilo esse ponto é estreito.

A tudo isto juntava-se a distância. O Francisco e a Maria não podiam estar no campo a toda a hora, e sem informação em tempo real cada ausência trazia a mesma pergunta silenciosa: estará tudo bem?

"O mirtilo não é uma cultura fácil. Temos granizo fora de época, geadas fora de época... Tudo isso são desafios que o agricultor tem que gerir", resume Maria João Raro, produtora da Maio Verde.

Do palpite para os dados 
 

A resposta não passou por regar mais nem por controlar menos. Passou por ver. A Maio Verde instalou um conjunto de seis dispositivos que funcionam, em conjunto, como um sistema nervoso para a exploração: sensores que sentem, programadores que agem e uma plataforma que reúne tudo num só lugar.

Uma sonda de humidade do solo passou a mostrar o que a planta tem de facto disponível. Um sensor de condutividade elétrica trouxe a nutrição para dentro do que é mensurável, em vez de ficar entregue à estimativa. Três programadores Agronic passaram a atuar sobre a rega a partir dessa informação, e uma estação meteorológica completa transformou o clima, antes uma ameaça imprevisível, num dado com que se pode contar.

É a junção do clima com a rega que muda a natureza da decisão. Deixa de se regar porque chegou a hora e passa a regar-se porque o solo e o tempo o justificam. No pico do verão, quando a procura de água é máxima e cada excesso ou falha se paga depressa, é aí que esta diferença mais pesa.

O que muda quando se rega na medida certa
 

O objetivo nunca foi simplesmente gastar menos água. Foi produzir melhor. E foi justamente ao regar na medida certa, ajustando a água às condições reais em vez de a aplicar por segurança, que a Maio Verde acabou por usar 32% menos água, sem comprometer a produção nem a qualidade que a exploração faz questão de manter.

A poupança é, no fundo, a prova de que a precisão funciona. Quando se rega a olho, rega-se quase sempre a mais. Quando se rega com dados, dá-se à planta o que ela precisa e pouco mais, e é a fruta que beneficia.

O ganho, porém, não se mede só em água. Com seis dispositivos a monitorizar continuamente o solo e o microclima, os irmãos passaram a gerir a exploração à distância.

"Eu consigo, à distância, estando noutra parte do país, saber se os pomares estão a regar, a quantidade de água que está a passar nas tubagens... Sabemos ao momento o que podemos fazer melhor", conta a produtora.

Amplificar o produtor, não substituí-lo
 

O caso da Maio Verde diz algo simples sobre tecnologia agrícola: ela não veio substituir o conhecimento de quem produz, veio amplificá-lo. Continuam a ser o Francisco e a Maria a decidir sobre o pomar. A diferença é que hoje decidem com o campo inteiro à frente dos olhos, e não com a incerteza de quem adivinha.

Num setor em que a água é cada vez mais escassa e o clima cada vez menos previsível, e numa cultura tão exigente como o mirtilo, decidir com base em dados deixou de ser uma vantagem. É a condição para produzir com qualidade, ano após ano.